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Variabilidade da Frequência Cardíaca na prescrição do exercício contínuo

Autora: Patrícia Pereira



Importância do tema:

A utilização de intensidades adequadas durante a prática do exercício físico é fundamental para que o princípio da sobrecarga seja respeitado e com isso ocorram adaptações fisiológicas dependentes do tipo de treinamento realizado. De acordo a Diretriz Brasileira de Reabilitação Cardíaca de 2020, a intensidade do exercício físico aeróbico pode ser prescrita através dos seguintes métodos: sensação subjetiva de esforço (Borg); teste de fala; percentuais da frequência cardíaca pico, preferencialmente obtida através de um teste de esforço máximo; frequência cardíaca de reserva e limiares do teste cardiopulmonar.

Um outro método de determinação da intensidade do treinamento aeróbico que vem sendo cada vez mais utilizado na prática esportiva é a variabilidade da frequência cardíaca – VFC.


MAS O QUE É A VFC?


A Fisiologia e a Variabilidade da Frequência

O cronotropismo ou automatismo é a propriedade do músculo cardíaco de gerar, independentemente do Sistema Nervoso Central (SNC), potenciais de ação que são responsáveis pelo estabelecimento da frequência cardíaca (FC). (1, 2,3). A ritmicidade própria ou atividade de pacemaker é devida a presença de um sistema de fibras auto excitáveis que se distribuem pelo coração de forma organizada. Fazem parte desse sistema de condução elétrica o Nó Sinusal (SA), Nó Atrioventricular (AV), feixe de His e fibras de Purkinje (1). A FC além de ser controlada intrinsecamente também é modulada de forma extrínseca pelo Sistema Nervoso Autônomo (SNA) e sua subdivisão parassimpática e simpática (2, 3, 4,5).

Em condições normais, o coração não funciona como metrônomo, uma vez que oscilações dos batimentos cardíacos são necessárias para que o sistema cardiovascular (SCV) se ajuste de forma rápida aos estímulos ambientais, fisiológicos e patológicos aos quais está exposto, entre eles o estresse, exercício físico, respiração, sono, ortostatismo e os induzidos pela presença de algumas patologias (3, 4,5). A influência do SNA sobre o coração é dependente de informações provenientes dos barorreceptores, quimiorreceptores, sistema vasomotor, sistema respiratório, sistema termorregulador e sistemas neuroendócrinos, tais como o renina-angiotensina-aldosterona. (2,3,4,). Recebe o nome de variabilidade da frequência cardíaca (VFC) as oscilações nos intervalos RR de batimentos cardíacos consecutivos normais que são resultantes das modificações da ação do SNA sobre o comportamento da frequência cardíaca (2,4).




Figura 1 - Ilustração de um traçado do eletorcardiograma (ECG) com intervalos R-R (IR-R) em milisegundos


VFC como estratégia para mensurar o risco à saúde

Em termos gerais, uma alta VFC é indicativo de boa adaptação fisiológica e a presença de mecanismos autonômicos eficientes. Já a sua redução pode ser considerada um indicador de disfunção fisiológica e inadequada atividade do SNA, podendo estar associada à presença de patologias ou surgimento de eventos adversos quando as mesmas já estão instaladas. (4,5,).

A relação entre o funcionamento do SNA e mortalidade por doenças cardiovasculares possibilitou a utilização da VFC como ferramenta não invasiva de avaliação da atividade simpatovagal cardíaca.

Instrumentos de mensuração

Diversos instrumentos como eletrocardiograma, conversores analógicos e cardiofrequencímetros podem ser utilizados para obtenção de índices que permitem a análise da VFC. (2, 4,5).

Para a análise da VFC, os índices podem ser obtidos por métodos lineares e não lineares. Os métodos lineares de análise da VFC são subdivididos em dois tipos: o domínio do tempo e o domínio da frequência.


Domínio do tempo

No domínio tempo os resultados são expressos em unidade de tempo, mais especificamente, em milissegundos (ms) e o cálculo dos índices da VFC é realizado principalmente por métodos estatísticos ou geométricos. (2, 4, 5,).


Os principais índices do domínio tempo obtidos por métodos estatísticos (média e desvio padrão) são:


RR médio (média de todos os RR normais).

• SDNN (Standart Deviation of all NN Interval) desvio padrão de todos os intervalos RR normais.

• SDNN (Standart Deviation of all NN Interval) desvio padrão de todos os intervalos RR normais.

• SDNN (Standart Deviation of all NN Interval) desvio padrão de todos os intervalos RR normais.

• SDANN (Standart Deviation of the Average NN Interval) desvio padrão das médias dos intervalos normais calculados em intervalos de 5 minutos.

• SDNNi (The mean of 5 minutes Standart Deviation NN Intervals) média dos desvios padrões dos intervalos RR normais calculados em intervalos de 5 minutos.

• RMSSD (Root-Mean of square sucessive NN interval difference) raiz quadrada da soma das diferenças sucessivas entre intervalos RR normais adjacentes ao quadrado.

• PNN50 (Percent of normal-normal NN intervals whose difference exceeds 50ms) percentual de intervalos RR normais que diferem mais que 50 milisegundos do seu adjacente.


Importante: SDNN SDANN e SDNNI são índices globais da atividade do SNA, ou seja, refletem tanto a modulação simpática como a parassimpática cardíaca. Já o RMSSD e PNN50 refletem predominantemente a atividade parassimpática sobre o coração.


Domínio da frequência

O domínio frequência ou análise espectral é um método que permite a decomposição da VFC em seus componentes oscilatórios os quais são definidos em frequência, amplitude e expressos em um tacograma. (2.4,5)


Os principais componentes utilizados no domínio da frequência (análise espectral) são:

1) Componente de alta frequência (AF), com faixa de variação de 0,15 a 0,40 Hz, modulado pelo sistema nervoso parassimpático cardíaco e pela respiração;

2) Componente de baixa frequência (BF), com faixa de variação de 0,04 a 0,15 Hz, modulado pela ação conjunta dos componentes simpático e parassimpático sobre o coração, no entanto, com predominância do simpático;

3) Componente de muito baixa frequência (MBF), com variação de 0,003 a 0,04 Hz ultrabaixa frequência (UBF), com faixa de variação de 0 a 0,003 Hz. Índices menos utilizados cuja explicação fisiológica não está bem estabelecida.

4) Relação BF/HF reflete as mudanças absolutas e relativas entre os componentes simpático e parassimpático do SNA, caracterizando o equilíbrio vagal simpático no coração. A relação BF/HF reflete as mudanças absolutas e relativas entre os componentes simpático e parassimpático do SNA, caracterizando o equilíbrio vagal simpático no coração. Pode-se dizer que valores acima de 1 dessa relação indicam fatores de perturbação (estresse) e predomínio simpático e valores iguais ou ligeiramente inferiores a 1 indicam excelente balanço autonômico com predomínio parassimpático. Os valores muito abaixo de 1 podem representar disautonomia por excesso do tônus vagal.



Fonte: Catai et al 2016



Fonte: Catai et al (2016).

Figura 2: Ilustração de uma série de IR-R coletados durante 900 segundos (figura superior) e a decomposição da série figura inferior).Por meio da análise espectral, em espectro de potência mostrando, em azul, a banda de muito baixa frequência (MBF), em rosa, a banda de baixa frequência (BF) e, em vermelho, a banda de alta frequência (AF) de um sujeito jovem saudável.


Aplicação prática

Como mencionado acima o limiar de anaerobiose (LA), importante parâmetro para determinação da intensidade do exercício incremental, pode ser identificado por meio da análise de alguns índices da VFC, destacando-se o RMSSD e o SD1. Esses dois índices que são representativos da atividade parassimpática, reduzem significativamente a partir da carga correspondente ao LA e apresentam uma relativa estabilização após esse ponto.(6)

A avaliação da VFC previamente ao treino permite a construção guias de treinamento que são úteis no acompanhamento tanto de atletas quando de pacientes inseridos em programas de reabilitação cardiopulmonar. A intensidade do treino assim como os períodos de recuperação ou descanso são definidos de acordo com os índices de VFC medidos. Treinos de moderada a alta intensidade em dias de alta VFC e baixa intensidade ou repouso quando VFC estiver reduzida. (6)

Logo, a VFC vem se mostrando como uma importante ferramenta tanto para diagnóstico quanto no tratamento de DCVs, devendo ser mais utilizada na prática clínica.



Referências Bibilográficas

1- Shaffer F, Ginsberg JP. An Overview of Heart Rate Variability Metrics and Norms. Front Public Health. 2017 Sep 28;5:258. doi: 10.3389/fpubh.2017.00258.

2- Hadaya J, Ardell JL. Autonomic Modulation for Cardiovascular Disease. Front Physiol. 2020 Dec 22;11:617459. doi: 10.3389/fphys.2020.617459

3- Vanderlei, Luiz Carlos Marques et al. Noções básicas de variabilidade da frequência cardíaca e sua aplicabilidade clínica. Brazilian Journal of Cardiovascular Surgery [online]. 2009, v. 24, n. 2 [Acessado 10 Julho 2022] , pp. 205-217

4- Lopes PFF, Oliveira MIB , André SMS, Nascimento DLA, Silva CSS, Rebouças GM et al. Aplicabilidade Clínica da Variabilidade da Frequência Cardíaca. Rev Neurocienc 2013;21(4):600-603

5- Marães VRFS.Frequência cardíaca e sua variabilidade: análises e aplicações. Rev Andal Med Deporte. 2010;3(1):33-42

6- Catai AM, Pantoni CBF, Simões RP. Modulação autonômica da frequência cardíaca: fundamentos para a prática clínica. In: Associação Brasileira de Fisioterapia Cardiorrespiratória e Fisioterapia em Terapia Intensiva; Martins JA, Karsten M, Dal Corso S, organizadores. PROFISIO Programa de Atualização em Fisioterapia Cardiovascular e Respiratória: Ciclo 2. Porto Alegre: Artmed Panamericana; 2016. p. 63-107. (Sistema de Educação Continuada a Distância, v. 3).

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